Autor: 
Raphael Vivacqua Carneiro

 

Em 1996 a gigante de tecnologia IBM criouo supercomputador Deep Blue, cuja missãoera desafiar o então campeão mundial de xadrez Garry Kasparov. Omatch foi vencido por Kasparov; porém, numa das rodadas, pela primeira vez na história um computador venceu o campeão do mundo em tempo normal.Assim, caiu por terra um dos últimos bastiões de orgulho intelectual da raça humana.Ao final,Kasparov profetizou: “sou o último ser humano campeão de xadrez”. A profecia foi confirmada nomatch de 1997, vencido por Deep Blue. Desde então, as máquinas tornaram-seimbatíveisno jogo de xadrez, o qual é considerado o íconedos problemas deraciocínio lógico.

Inteligência Artificial é uma área da ciência que estuda a inteligência e procura reproduzi-la em máquinas. Seu progresso faz com que computadores e robôs se comportem de formas que, até recentemente, supunham-se exclusivas da inteligência humana. Diante disso, emerge uma intrigante questão: pode uma máquina ser mais inteligente do que os seres humanos? Pode uma criação superar o seu criador na sua faculdade mais significativa: a inteligência?

Nas últimas décadas o avanço da tecnologia na área de inteligência artificial vem ocorrendo em ritmo muitoacelerado. Diversas habilidades das máquinas,até então inexistentes,vêm alcançando patamar de desempenho superior ao humano. Isso inclui, por exemplo, a visão computacional, que éa capacidade de analisar imagens, obtendo informações e reconhecendo padrões. Outrofeito notável é o processamento de linguagem natural, disponível em aplicativosdo grande público, como Cortana, Siri e Google Assistente. Neste ramo, em 2016 a empresa Hanson Robotics construiu o robô humanoide Sophia, capaz de utilizar 62 gestos e expressões faciais humanas, enquanto conversa sobre tópicos predefinidos e responde às perguntas dos seus interlocutores. Sophia causou furor devido ao seu comportamento, desenvoltura e, principalmente, a sua semelhança com a fisionomiahumana.

Tomandoo conceito de inteligência como o conjunto de todas as faculdades intelectuais, tais como:memória,raciocínio,abstração, etc.,vemos que algumas destas habilidades já se encontram suplantadas pelo computador. Basta observarmos como um computador memoriza instantaneamente as informações de uma enciclopédia inteira, ou como resolve fórmulas matemáticas demasiado complexas para um cérebro humano. Por outro lado, a criatividade é umadas faculdades intelectuais que diferenciam a inteligência humana e a artificial. A criatividadeque é cabível a uma máquina inteligente é aquela que pode ser obtida por ações combinatóriasou exploratórias, isto é, que examinam múltiplas combinações de ideias familiares, a fim de gerar uma nova ideia, ou então que exploram lacunas e restrições existentes num certo domínio. Este tipo de criatividade érealizado mais eficazmente por uma inteligência artificial do que pela humana, devido ao caráter exaustivo deste método criativo. Por outro lado, não se concebe uma máquina que tenhaa criatividade espontânea, repentina e imprevisível como a de um insight, uma inspiração, uma intuição – algo tão comum entre artistas e cientistas humanos. Em relação aos insights geniais, a Doutrina Espírita afirma que algumas vezes essas ideias vêm do próprio indivíduo; porém, de outras vezes, as ideias lhes são sugeridas mentalmente por outros Espíritos [1]. As mentes humanas, encarnadas e desencarnadas, formam uma rede interdimensional que interconecta os seus pensamentos, entre si e, em última instância, com o Criador. Isto é uma diferença significativa entre a criatividade humana e a dasmáquinas inteligentes.

Outro aspecto a ser destacado na diferenciação entre a inteligência humana e a artificial é a habilidade de realizar juízo de valor, baseado em seu código moral, definindo o bem e o mal, o certo e o errado. Por mais que se tente inserir numa inteligência artificial os parâmetros e critérios de um código moral elevado, este não terá a perfeição das leis divinas, porque será uma criação humana, afetada por inevitáveis contradições e imperfeições. Diferentemente, a Doutrina Espírita afirma que o ser humano carrega em sua consciência o código moral das leis divinas [2]. Buscando a sua “centelha divina” interior, o homemé capaz de orientar-se por meio de sua bússola moral inata e elevar a sua capacidade de juízo.

Reconhecendo as limitações e diferenças intelectuais e morais entre humanos e máquinas, cabe uma reflexão: diante da visão espírita, é viável um mundo em que máquinas extremamente inteligentes convivam conosco, realizando grande parte das atividades que eram exclusivas da raça humana? A resposta a esta questão está na“lei do progresso”, que assevera que nada pode impedir a marcha progressiva e lenta da humanidade, uma vez que ela é resultante natural da força das coisas [4]. Segundo o espírito Santo Agostinho [5], a lei do progresso aplica-se tanto aos seres animados, como aos inanimados; por conseguinte, aplica-se a computadores e robôs.Ao longo da história da humanidade, cada período de revolução industrial trouxe inúmeros progressos e melhorias na qualidade de vida. A primeira revolução industrial, em meados do século XVIII, trouxe a máquina a vapor, o aumento da produção e da circulação de mercadorias e de pessoas. A segunda revolução industrial, um século depois, trouxe o petróleo, a energia elétrica, a telefonia, o rádio, as linhas de montagem e a produção em série. A terceira revolução industrial, no século seguinte, trouxe os computadores e a internet. Nos dias atuais, estamos vivenciando a quarta revolução industrial, promovida pelas máquinas inteligentes e outras tecnologias disruptivas. É a inegável expressão da lei do progresso, em seu aspecto intelectual e material. O progresso moral virá por decorrência, ainda que não seja de imediato [4].

Pode-se ainda questionar, do ponto de vista da filosofia espírita: um mundo em que as máquinas realizem toda sorte de atividades, graças à sua extraordinária inteligência artificial, não viola a lei do trabalho, um dos princípios morais do Espiritismo? Da mesma forma que máquinas mecânicas substituíram o trabalho braçal nas primeiras revoluções industriais, agora máquinas inteligentes substituirão uma gama maior de trabalhos anteriormente realizados por humanos. Isto não configura uma violação à lei do trabalho, tendo em vista o conceito de que “toda ocupação útil é trabalho” [3]. Ainda que o homem possua bens e serviços em abundância, providos por máquinas inteligentes que lhe assegurem a subsistência material, ele não se encontrará isento da obrigação moral de tornar-se útil aos seus semelhantes, conforme os meios que disponha, nem de aperfeiçoar a sua inteligência ou a dos outros, o que também é uma forma de trabalho [3].

Por fim, cabe uma reflexão sobre as visões sombrias e distópicas que a ficção futurista vez por outra nos traz, projetando um mundo em que os seres humanos são dominados por máquinas extremamente inteligentes e cruéis. Alguns exemplos emblemáticos são os filmes “O Exterminador do Futuro” e “Matrix”. Contra essas visões pessimistas, devemos lembrar que o nosso planeta não é uma nau à deriva, poiscaminha a passos largos na transição a um mundo de regeneração [6]. A humanidade já passou por terríveis períodos de tirania e dominação de um povo sobre outro, desde o Império Romano até o nazismo alemão. É compreensível que no subconsciente de muitos indivíduos exista o temor de que o sofrimento passado em outras encarnações venha a repetir-se, caso surja uma nova espécie artificial com poderio intelectual dominante sobre todos nós. Contudo, o futuro não está fadado a repetir o passado; a lei do progresso assegura o oposto.

 

1 - KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93ª ed. 2013, questão 462.

2 - Id. Ibid. - questão 621.

3 - Id. Ibid. - questões 675 e 679.

4 - Id. Ibid. - questões 780 e 783.

5 - Id. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 131ª ed. 2013, cap. 3.19.

6 - Id. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. 53ª ed. 2013, cap. 18.

Atendimento Fraterno via chat. De domingo a quinta-feira, das 20h às 22h, e em dias e horários alternativos.